"A mulher brasileira para mim é como uma Sofia Loren", diz Domenico Dolce

No Brasil para divulgação de seu livro de fotografia 'Queen', o estilista da Dolce & Gabbana falou sobre a relação com o Brasil, família, se assumir gay e sua paixão pela fotografia.


Foto: Takeuchiss

"Uma imagem é eterna, um depoimento da vida, que vai além de moda. Uma imagem é como olhar e ler de uma vez um livro inteiro". É assim que, passional como um tradicional italiano da Sicília, o estilista Domenico Dolce descreve seu amor por fotografia. No Brasil para divulgação de seu novo livro, o designer da Dolce & Gabbana conversou com o site da Marie Claire sobre a paixão pela iconografia e alta-costura, os dois temas que uniu em seu novo livro de fotografia, Queen. 


“Queria fazer um retrato das clientes que comprar e usam Alta Moda [nome da linha de alta-costura da grife]. Elas não estão ali comprando um vestido caro ou um relógio de ouro porque são ricas. Essas mulheres são interessantes, poderosas e amam as coisas simples da vida, a cultura italiana tradicional: o tomate, o limoncello, a pasta, Capri, Portofino”, descreve Domenico.

Vestidas como rainhas, 50 mulheres reais posaram para os estilistas. Quase um quinto delas eram brasileiras: Agla Mara Dondo, Yumi Dondo, Ana Carolina Ribeiro Valadares Gontijo, Andrea Dellal, Anna Claudia Rocha, Iara Jereissati, Liana Moraes, Ruth Malzoni e Vivianne Piquet foram selecionadas pelo duo de estilistas para participar do projeto. “Luxo não é um sapato. Luxo é saber apreciar uma boa mozzarella, e poder compartilhar isso com seus amigos, sua família. É comer para dividir uma experiência, não só para sobreviver. Essas mulheres sabem disso".

Millenial-mania

Como marca, a Dolce & Gabbana foi a primeira a abrir um diálogo com a geração millenial — classe de consumidores que conduziu um boom no mercado de luxo nos últimos anos.  Desde 2013, a grife oferece lugares na primeira fila de seus disputados shows às mais diferentes digital influencers e já convidou nomes como Marina Ruy Barbosa, Bruna Marquezine e Emily Ratajkowski para desfilar suas coleções. "Nós tivemos uma boa experiência com os millenials. A moda sempre precisa de algo novo, por isso decidimos trabalhar com essa geração”, conta Domenico. Mas é na geração-Z que ele aposta suas fichas — não só como clientes mas como agentes de mudança. “Eu conheço essa turma por que meu sobrinho tem 12 anos, sei que são mais politizados, sabem do clima, não querem usar plástico. Nós que somos o desastre”, diz ele, rindo.


“Meu slogan é: depois da chuva sempre vem o sol. Eu acredito muito nisso. Para mim, a geração-Z é o nosso sol”.

Durante a conversa, que aconteceu sob a condição de não comentar as recentes polêmicas da marca, inclusive o cancelamento de um desfile na China em novembro de 2018, depois de acusações de racismo contra Stefano Gabbana, Domenico também falou sobre um dos símbolos mais fortes da cultura italiana (e da estética da Dolce & Gabbana): família. “Para mim, minha família é minha vida, sou muito sortudo”. O designer dividiu detalhes pessoais da sua experiência de se assumir gay aos 24 anos para sua mãe. “Quando tive dúvidas sobre quem eu era, o que sentia, fui falar com a minha mamma, que me ajudou muito, me apoiou. Depois disso Stefano foi passar um Natal conosco. Não era fácil, eram os anos 80, em Polizzi Generosa [pequeno vilarejo de 30 mil habitantes na Sicília, onde ele cresceu]. Quando questionado sobre a criação de meninos em países como o Brasil e Itália, onde ainda se vê fortes traços de masculinidade tóxica, ele é categórico: "Isso é um assunto muito delicado, não se pode julgar uma família ou como um filho é criado. É uma construção social, não apenas de família”.

Paixão brasileira

Depois de 20 anos juntos, Domenico e Stefano se separaram em 2005 -- porém mantendo a marca e o trabalho juntos. Hoje o parceiro do estilista é o brasiliense Guilherme Siqueira, com quem vive em Milão há 3 anos. “Eu fui apenas uma vez para Brasília, mas me mostraram só o melhor da cidade, adorei a arquitetura”, disse. O estilista também é fã da série brasileira da Netflix,  Coisa Mais Linda, onde viu pela primeira vez a atriz Patty Dejesus, hoje uma das celebridades vestidas pela marca. Outra que acaba de entrar para o rol de musas é Ivete Sangalo, além de antigas parcerias da grife como Grazi, Bruna Marquezine e Marina Ruy Barbosa.


“Eu amo a mulher brasileira, ela é bem consciente de seu corpo, como uma Sofia Loren. A mulher italiana é mais mamma”, ri.

Para Domenico, o Brasil é não só um importante mercado mas também um país com o qual se identifica. "Nós somos do sul, latinos. Amamos o sul do mundo e assim como o brasileiros, adoramos festa, família. Temos as mesmas tradições”, finaliza.


Fonte: Site Marie Claire

Texto: MARIA LAURA NEVES E FERNANDA MOURA GUIMARÃES

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