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A LINGUAGEM CORPORAL DO VERÃO 2023 DE ALTA-COSTURA

Na mais recente temporada de desfiles de haute couture, a relação entre corpo e roupa volta a ser o principal destaque e ponto de discussão nas melhores coleções.


Texto: Luigi Torre

Fonte: Elle Brasil

Nesta temporada, quis me concentrar nas técnicas e no artesanato da alta-costura, com a leveza, a fluidez e a atitude de hoje. É uma celebração dos ateliês e dos artesãos que realizam essas roupas, do trabalho intenso e do compromisso emocional com cada peça, tanto para o criador quanto para o usuário. Mostra como as tradições íntimas da alta-costura são vivas e respiram.”

Inspirado no Brasil, o desfile de alta-costura do francês Stéphane Rolland termina com uma explosão de dourado, "o tesouro do conquistador", segundo o estilista. AP - Michel Euler

Quem diz é Kim Jones, diretor artístico da Fendi, sobre o desfile, na manhã desta quinta-feira (26.01). A fala resume bem um ponto central do verão 2023 de haute couture: a relação prática e funcional entre a roupa e o corpo. É óbvio, sei bem. No entanto, e principalmente pré-pandemia, a roupa era o que menos importava. Até no métier exclusivíssimo e cheio de regras, que só faz uma peça por cliente, sob medida e vontades.

Ainda que o físico não tenha sido ignorado pelas casas com aval para usar o termo alta-costura, as apresentações frequentemente desviavam a atenção do seu objeto primordial. Sabe aquela história da moda como entretenimento? É isso. Ou era. Será? Por enquanto, parece que sim.

Nesta estação, não teve nenhum cenário mirabolante, performance artística nem qualquer outro artifício espetaculoso caça-clique. Quer dizer, tiveram os bichos de mentira na Schiaparelli, embora seja mais um caso de surto coletivo de quem só enxerga a realidade pelas lentes distorcidas da internet do que uma ação pensada para viralizar.

Livre de pirotecnias, as principais coleções foram aquelas interessadas em como a roupa pode facilitar a vida de quem a usa e destacar, pelo excesso ou pela simplicidade, o corpo feminino. Na Fendi, Kim Jones pende para o lado simples da coisa. Os melhores looks são aqueles de seda quase transparentes, com babados, pregas e plissados. Alguns vinham como uma espécie de sobressaia, que, vez ou outra, vinha amarrada diagonalmente no torso.

A vontade por uma tal intimidade entre o físico e a veste levou o estilista para o universo da lingerie. Por baixo das peças translúcidas, dava para ver uma calcinha ou um sutiã aparecendo num vestido tomara que caia fake (era tudo costurado junto). Os tons esmaecidos da cartela de cores também reforçam a sensação de leveza e ausência de esforço.

No entanto, nem tudo era tão simples assim. Algumas peças tinham cortes esquisitos na barra, mais curtas na frente, para facilitar o caminhar. Intenção nem sempre bem-sucedida. Outros modelos, como os com bordados de paetê fosco ou com tecido tramado junto a rendas, pareciam duros demais e limitantes no movimento.

Na Schiaparelli, o corpo serve de base para construções de proporções maximizadas. Os primeiros looks da Schiaparelli, acinturados numa estrutura de corset, com ombros arredondados e estruturados, saia plissada ou calça de alfaiataria ampla e fluida, são baseados no frasco em forma de torso feminino do primeiro perfume de Elsa Schiaparelli, o Shocking.

A coleção marca uma ruptura no trabalho do diretor criativo Daniel Roseberry. Rolou uma limpeza visual para dar mais ênfase às texturas dos tecidos, às manualidades e às construções das peças. Algumas delas, vale dizer, são bem leves e delicadas, como o vestido camisola num tom de rosa esmaecido e o vestido coluna preto com microbordados. É um respiro muito bem vindo, no meio de tantas formas rígidas e materiais com aparência pesada.

Na Dior, a conta é de subtração para qualquer rigidez, estrutura ou preenchimento. Até o famoso vestido longo sem alças sem aquele busto duro para deixar a peça no lugar. A solução são drapeados e pregas, bem discretos, com caimento natural e muita leveza, a palavra-chave da coleção.

O ponta-pé inicial foi uma foto de 1951 da performer e ativista Josephine Baker, com um look de alta-costura da maison. Nascida nos EUA e feita ícone em Paris, ela era cliente fiel de Christian Dior. Isso depois de 1925, quando se apresentou pela primeira vez em Paris e se tornou uma das principais representantes da revolução cultural do jazz.

A diretora de criação Maria Grazia Chiuri não se ateve apenas àquela imagem específica. Caçou várias outras e acabou criando looks para várias situações e fases da dançarina. Por isso, vemos uma porção maior de opções para o dia – e também porque era uma demanda crescente entre as clientes. Ternos de lã cinza usados com saias, casacos inspirados na jaqueta do smoking e vestidos alongados em tons escuros, são cortados com extrema maestria para parecem simples, descomplicados e, sobretudo, leves. A complexidade desse processo é imensa, mas o resultado tão maravilhoso, que parece a coisa mais natural do mundo.

Apesar dos desfiles estarem menos espetaculosos, o espetáculo em si não saiu da cabeça dos estilistas. Maria Grazia recriou o guarda-roupa de Josephine Baker de acordo com os desejos de agora, na Dior. Para Giorgio Armani, a figura do arlequim, personagem onipresente em peças teatrais e pinturas da Europa antiga, deu um toque mais divertido, surreal até, para seus ternos, agora estampados com os losangos dos antigos palácios e teatros venezianos, berço da figura inspiracional. Na Chanel, a diretora criativa Virginie Viard pegou os animais que decoravam a sala de Coco Chanel e pediu para o artista Xavier Veilhan os reinterpretar em versão maximizada. Feitos de madeira e papel, as réplicas agigantadas preenchiam a passarela cinzenta, como num circo deluxe.

A ideia continuou nas roupas, quase todas arrematadas por gravata borboleta, chapéu preto e sapato ou bota sem saltos. O comprimento dos looks chegam abreviados, praticamente só tem minissaia e bermudas curtas. A exceção são os modelos de festa, mais pro final do desfile. Como nas outras apresentações da temporada, as decorações são reduzidas ou camufladas, como se fizessem parte dos tecidos – são eles as grandes estrelas desta temporada de alta-costura.

Com formas contidas, silhueta evasê ou reta, bem anos 1920, o verão 2023 de haute couture da Chanel se mostra bem mais jovem, sexy até. Apesar da estrutura firme de alguns, é visível a atenção e cuidado com a vestibilidade, com o caimento e com a consideração do corpo e movimento da mulher.

É provavelmente a coleção mais bem resolvida de Virginie. Tem seu lado roqueira, irreverente de boutique, tem a história da maison e, acima de tudo, uma representação mais pé no chão da moda e próximas da realidade das consumidoras da marca.

A alta-costura de Jean Paul Gaultier, dessa vez assinada por Haider Ackermann, o quarto estilista convidado nesse esquema rotativo, teve modelos posando como antigamente ou no estilo daquelas fotos famosas de Richard Avedon e Irving Penn. Teve também caminhar performático, modelos saindo de portas em pontos diferentes da passarela e até uma espécie de estúdio azul para o clique perfeito. O que não teve foi música.

Ou melhor, até teve, mas bem pouca. A trilha começava só com alguns ruídos e palavras soltas e bem espaçadas. Aos poucos, o ritmo acelera com um pulsar abafado, os sons se intensificam até que uma música, feita para Mahsa Amini, a mulher que morreu sob custódia da polícia moral do Irã e deu início aos recentes protestos no país, acaba com o silêncio. Mas não dura muito, e aí é o caminho reverso.

Vocês devem lembrar da primeira coleção de alta-costura da Balenciaga com direção criativa de Demna. Sem nenhum alto-falante ou caixa de som, como se fazia antigamente. Melhor para prestar atenção em cada detalhe da roupa. E como tinham detalhes nas de Ackermann para a Gaultier. É tipo uma couture dos tempos áureos do métier, só que atual, feita para o agora. Sem forçação, sem ostentação. É um tipo de luxo e sofisticação difícil de colocar em palavras.

E foi um casamento perfeito, a melhor colaboração desde que Jean Paul decidiu se aposentar e chamar novos criadores para interpretar sua história. Foi bom porque não foi literal nem óbvio. Em vez de mergulhar na parte cômica e clichê do francês, o designer convidado foi direto na essência, reforçando valores do design grandiosos, mas sem pedantismo.

Ackermann ficou um tempo sem poder usar o próprio nome devido a um imbróglio jurídico e burocrático, e recuperou o direito recentemente. Para um estilista apaixonado como ele, não deve ter sido pouca a emoção. E o que se viu na noite daquele 25 de janeiro foi a prova.

O desfile começa focado na alfaiataria, ramo de excelência de Gaultier muito admirado por Ackermann. Primeiro é a cartela tradicional, branco e preto. Aos poucos, pontos de luz e cores vão se espalhando e tomando conta dos looks. Mais interessante, contudo, é perceber como o corte afiado e preciso do francês se mistura com as construções texturizadas do convidado para ganhar uma nova vida nos tecidos brilhantes, como o tafetá, crepe, cetim duchese.

Não demora muito para aparecerem as interpretações dos bustiês, menos pontudos e igualmente impactantes. E aí vem mais uma enxurrada de referências muito bem retrabalhadas. Os vestidos pretos com decote redondo, profundo, e com um fiozinho de diamantes solto nas costas. Os smokings com penas, numa releitura de uma coleção de alta-costura de 1997. Os vestidos com capuzes que se transformam em volume arredondado, numa visão moderna das referências aos trajes africanos e indianos que Gaultier tanto gosta. Os plissados à la Hollywood dos anos 1940, fonte de inspiração recorrente para o fundador dessa maison. E, claro, os modelos esculturais do final.

Ah, e a adoração provocante e sexual de Jean Paul Gaultier pelo corpo feminino, agora, ganha outro predicado: romântica.

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